quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Primeira deserção do serviço militar, que ocorreu em Bagé, registrada no município de Canguçu. Possivelmente o soldado era escravo e morador de Canguçu (out. 1853)

      A próxima transcrição é mais um exemplo de histórias curiosas e intrigantes que ocorreram na então Vila de Cangussu, e no Estado do Rio Grande do Sul como um todo, no período aqui relatado de (1832/59). Esse documento estará transcrito em meu livro Raízes Canguçuenses, que será lançado em breve, e faz parte da Nota do Autor n° 33, sendo esta a trigésima terceira transcrição do livro original. Observa-se, nessa transcrição, a crueldade com que foi tratado o soldado Francisco de Mendonça, de origem Angolana, desertor do serviço militar que, após três (3) anos de prisão foi condenado a 600 chibatadas. Tal penalidade lhe tornou inválido, mesmo após três (3) anos de tratamento hospitalar. Não há menção direta de que tratava-se de um escravo, por não ser isso informado no documento, mas, analisando a época e a penalidade imposta, pode-se inferir que teve tratamento análogo aos escravos fugitivos para os Quilombos quando recapturados. Importante frisar que nessa época, era comum o escravizado prestar serviço militar no lugar de seu senhor, ou de um filho deste, em troca de promessa de alforria após o período de serviço obrigatório.


      OBS: a seguir está descrita a íntegra da transcrição, exatamente como no manuscrito original, com linguagem dos escrivães da época. O uso do "fs", na verdade é um artifício que será melhor explicado no início do livro, para substituição do uso do "" (letra ésse longo) seguido de "s" de imprensa, sendo que o "f" é a letra atual que mais se parece com o "do manuscrito, conforme era a regra dos (dois) "ss" da época. O uso da letra "" (ésse) longo fora abolido na Europa no início do Séc. XIX, mas por aqui ainda vigorou durante todo o período mencionado. Atualmente, a letra "(ésse longo) não existe em teclados para ser possível sua digitação conforme a escrita da época, não sendo possível o uso deste caractere especial devido ao texto ficar com espaçamento alterado, restando como único remanescente dessa extinta letra, o símbolo matemático da integral - . 

      Transcrição literal do manuscrito original:


Lançamento de hum papel de escuza do servifso militar do Soldado Francisco de Mendonça, a qual he o que ao diante se declara.


Francisco Felix da Fonceca Pereira Pinto, Commendador da Imperial Ordem da Roza, Cavalleiro das do Cruzeiro e São Bento de Avés, Coronel Graduado e Commandante do Batalhão oito de Fuzileiros, por Sua Magestade o Imperador é de setra.

Em observancia ao Avizo do Ministerio da Guerra de vinte e hum de Maio, mandado cumprir por Officio do primeiro de Julho, da Repartição do Senhor Ajudante General do Excellentifsimo Senhor Brigadeiro Commandante da terceira Brigada, e deste ao Batalhão em dezaseis de Agosto tudo do corrente anno; tem baixa do servifso militar a praça abaixo declarada, por ser julgado invalido em Inspecção da junta de saúde, e que no livro de registo tem os afsentos do theor seguinte. = Quinta Companhia = Soldado numero vinte e cinco = Francisco de Mendonça, filho de páes incognitos, natural d’ Angola, cabellos pretos carrapichos, olhos pretos, officio Alfaiate, estado solteiro, nasceu em mil oito centos e oito, polegadas de altura sefsenta, afsentou praça recrutado, e jurou Bandeiras em nove de Janeiro de mil oito centos e trinta e oito no primeiro Corpo de Artilharia de Posição, em virtude do Officio de Ajudante de Ordem, da mesma dacta, sendo desligado a dezenove do mesmo mez e anno por ter feito paçagem para os corpos existentes na Provincia do Rio Grande do Sul, em cumprimento ao Avizo de dezaseis, e Officio de dezoito, do Excellentifsimo Senhor Commandante das Armas da Corte, tudo de Janeiro do mesmo anno, teve paçagem para este Batalhão a quatorze de Fevereiro de mil oito centos trinta e oito, vindo do deposito de recrutas da Cidade de Porto Alegre, por ordem do Excellentifsimo Senhor Marechal de Campo Prezidente e Commandante das Armas da Provincia do Rio Grande do Sul: foi qualificado Réo de primeira dezerção aggravada pelo Conselho de Disciplina a onze de Dezembro de mil oito centos e quarenta, por ter faltado ao Batalhão a dous do mesmo mez e anno, reconduzido prezo a oito de Dezembro de mil oito centos quarenta e dous na Cidade de Porto Alegre, e foi solto a vinte e dous de Janeiro de mil oito centos quarenta e trez, e castigado com seis centas chibatadas, por ordem do Excellentifsimo Senhor General Commandante em Cheffe do Exercito. = Hospital = Baixa, socorrido athé vinte e dous de Julho, Alta, socorrido athé vinte de Agosto, baixa, socorrido athé nove de Setembro, alta, socorrido athé trez de Novembro, tendo em mil oito centos e trinta e oito, baixa, socorrido athé vinte e dous de Dezembro de mil oito centos e quarenta e dous, alta, socorrido athé trez de Janeiro, baixa, socorrido athé vinte e cinco de Abril, alta, socorrido athé vinte e seis de Maio, baixa, socorrido  athé quatro de Junho, alta,  socorrido athé dezaseis de Agosto, tendo de mil oito centos e quarenta e trez, baixa, socorrido athé dez de Março, alta, socorrido athé quatorze do mesmo, baixa, socorrido athé vinte e seis, alta, socorrido athé quatro de Junho, tudo em mil oito centos quarenta e seis. Nada mais consta de seus afsentos, dos quais me reporto, e para  constar mandei pafsar a presente escuza que vai por mim afsignada e sellada com o Sinete do Batalhão. Acampamento em Bagé trinta de Agosto de mil oito centos e quarenta e sete. E eu José Cyriaco Ferreira, Tenente que sirvo de Secretario Subscrevi. = Francisco Felix da Fonceca Pereira Pinto. = Sello numero húm reis cento e sefsenta. Pagou cento e sefsenta reis. Cangufsú seis de Outubro de mil oito centos e cincoenta e trez. = Sá Mesquita. = Lellis. = E nada mais se continha em dita escuza do servifso militar, que bem e fielmente aqui a lancei, e foi entregue em mão á parte por afsim me pedir com a competente verba, e ao original me reporto. Freguesia de Cangufsú seis de Outubro de mil oito centos e cincoenta e trez. Eu Camillo Henrique de Lellis Escrivão de Paz que escrevi e afsigno.


Camillo Henrique de Lellis




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