A transcrição a seguir é um exemplo de histórias curiosas e intrigantes que ocorreram na então Vila de Cangussu, no período (1832/59). Esse documento estará transcrito em meu livro Raízes Canguçuenses, que será lançado em breve, e faz parte da Nota do Autor n° 26, sendo esta a vigésima sexta transcrição do livro original. Não se sabe o desenrolar do acontecimento após este episódio mas, este é o primeiro registro oficial de uma espécie de intimação para um duelo em Canguçu. Registra-se também, o fato inusitado ser a intimação direcionada ao então Coletor do Imposto da Sisa da Vila de Cangussu (imposto Imperial), o paranaense radicado em Canguçu Sr. Manoel Antonio de Sá Mesquita, casado com Graciana Gomes Dias, que obrigatoriamente deveria ler tal documento para fazer a cobrança do dito imposto, como assim o fez no dia 14 de fevereiro de 1852, com sua insígnia Sá Mesquita. O autor da intimação, Sr. Francisco Lafuente, descrito como estrangeiro, era um espanhol aqui residente.
OBS: a seguir está descrita a íntegra da transcrição, exatamente como no manuscrito original, com linguagem dos escrivães da época. O uso do "fs", na verdade é um artifício que será melhor explicado no início do livro, para substituição do uso do "∫" longo seguido de "s" de imprensa, sendo que o "f" é a letra atual que mais se parece com o "∫" do manuscrito, conforme era a regra dos (dois) "ss" da época. O uso da letra "∫" ("s") longo fora abolido na Europa no início do Séc. XIX, mas por aqui ainda vigorou durante todo o período mencionado. Atualmente, a letra "∫" ("s") longo não existe em teclados para ser possível sua digitação conforme a escrita da época, não sendo possível o uso deste caractere especial devido ao texto ficar com espaçamento alterado, restando como único remanescente dessa extinta letra, o símbolo matemático da integral - ∫.
Lançamento de huma particular digo de huma carta particular dirigida a Manoel Antonio de Sá Mesquita, pelo estrangeiro Francisco Lafuente como ao diante se declara.
Senhor Mesquita. = Cangufsú Fevereiro quatorze de mil oito centos e cincoenta e dous = Senhor soube por pefsoas virídicas que voçé hontem tinha estado falando infamias da minha pefsoa; porem o que lhe poderei dizer a voçé de tal proceder, só me fica a consolação de ver que todos julgão os mais por si pelo que voçé me julga amim defse modo por que voçé tal qual fala de mim; pois o homem infame como voçé não pode falar dos mais homens, senão infamias. O homem conhecido sem sentimentos e relaxado como voçé he conhecido, não pode nunca falar bem de ninguém; e se voçé se recente do que ler o dito, pode marcar lugar, e hora, que estarei pronto como homem a pprovar-lhe, e mostrar-lhe que voçé é só figura de homem, e oppróbrio d’elles = Francisco Lafuente = Numero hum = cento e sefsenta reis = pagou cento e sefsenta reis = Cangufsú quatorze de Fevereiro de mil oito centos e cincoenta e dous = Sá Mesquita = Reconheço verdadeira á afsignatura retro = Freguezia de Cangufsú quatorze de Fevereiro de mil oito centos e cincoenta e dous = Em testemunho de verdade = Estava o signal publico = Camillo Henrique de Lellis. E nada mais se continha em dita carta particular, que bem e fielmente aqui a lancei, e foi entregue em mão á parte por afsim me pedir com a competente verba, e ao original me reporto. Freguezia de Cangufsú quatorze de Fevereiro de mil oito centos e cincoenta e dous annos. Eu Camillo Henrique de Lellis Escrivão de Paz que escrevy e afsigney.
Camillo Henrique de Lellis